Pouco conhecida, Apneia do Sono desencadeia graves consequências

Apesar de ser uma doença ainda pouco conhecida pela população, a Apneia do Sono pode acarretar graves consequências ao paciente. O alerta foi feito pelos médicos que estudam a doença há cinco anos, Luiz Scala, cardiologista, e Anderson Botti, do Instituto do Sono de Mato Grosso, em entrevista especial concedida ao Informa News. 
 
Baseados em estudos, um deles feito pela pós-graduanda Bianca Karoliny Pereira de Souza, da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT, sob a orientação do cardiologista Scala, avaliou o perfil de 430 motoristas de caminhão de carga pesada, que trafegam pela BR-364, em Cuiabá. Os dados refletem um grave problema de saúde pública. 
 
Os médicos chamam a atenção sobre a importância de uma força-tarefa junto aos poderes municipal, estadual e federal para combater o problema. O entendimento é pela urgência na construção de um laboratório público do sono, para atender os 85% da população que não dispõem de plano de saúde. 
A pesquisa de Bianca revelou que o problema é caracterizado por elevados riscos da síndrome da apneia do sono, doenças cardiovasculares e acidentes de trânsito, necessitando atenção especial a segmentos mais vulneráveis, para ações de promoção da saúde, prevenção e controle da doença. 
 
De acordo com Scala, são mais de dois milhões de veículos de carga pesada e 27.385 motoristas registrados no país; 70% das cargas de passageiros são feitas por rodovias; 87% dos motoristas de caminhão têm excesso de peso; 50% obesidade, 66% consomem bebida alcóolica, 84% são sedentários. 
 
“Ficamos extremamente preocupados com o alto índice de risco cardiovascular, muitos tomam café, psicoestimulantes e, praticamente, 50% ficam mais de 12 horas trabalhando. Portanto, todos esses fatores somados fazem com que esses indivíduos tenham mais riscos de doença cardiovascular”, alerta o médico Scala, que também é professor associado da Faculdade de Medicina da UFMT.
 
Scala informa que outro segmento da pesquisa, avaliou, por meio de três inquéritos, que 58% dessa categoria fazem parte do grupo de alto risco; 18% têm sonolência excessiva - a população em geral tem 5%. “Temos um contingente de alto risco de desenvolver apneia e suas consequências, que é a sonolência durante dia e déficit de atenção. Por isso, temos grande número de acidentes”, alerta Scala. 
 
TRÂNSITO QUE MATA - No Brasil, 281 motoristas de caminhão morrem em acidentes de trânsito por ano, por 10 mil habitantes. Quem tem apneia do sono tem de 2 a 10 vezes mais chances de sofrer acidente, do que aquele que não tem a doença. Para se ter ideia da gravidade do problema, 20% desses acidentes são por sonolência excessiva, as perícias mostram se o indivíduo dormiu ao volante. Os acidentes causados por obstáculo fixos não apresentam marcas de freadas no asfalto, indícios de que o motorista tenha dormido. 
“42% dos motoristas apresentam esses fatores de risco. ¼ dos acidentes são associados à sonolência e ronco.
 
Entre os motoristas de ônibus de Brasília quase 30% apresentaram os fatores; 4% relataram ter sofrido acidentes. É um quadro preocupante de risco para caminhoneiros e aos que transitam nas estradas, inclusive, nos meios urbanos”, diz Scala. 
 
COMBATE – Dentre as medidas necessárias para combater a apneia do sono estão:
  • Escolas do ensino fundamental devem tratar sobre o tema para alertar alunos e comunidade; 
  • Divulgação por meio dos veículos de Comunicação, com a parceria dos órgãos públicos, mobilizando a população a conhecer o problema e buscar ajuda médica, bem como conscientizar sobre melhorias na qualidade de vida, com a prática de exercícios físicos; 
  • Criação do Instituto Público do Sono; 
  • Rever aspectos da fiscalização desses profissionais; 
  • Melhorar o rastreamento e introduzir o mesmo inquérito usado na pesquisa também no Departamento Estadual de Trânsito; 
  • Introduzir política pública da Medicina do Sono;
 
Polissonografia - O médico Botti reforça a necessidade da implantação do laboratório público do sono em Mato Grosso. Em Cuiabá, o exame de Polissonografia é realizado somente em dois laboratórios da rede privada. A fila de espera pode demorar 10 dias. Ele destaca que a população ainda não tem tanto acesso à gravidade causada pela apneia do sono. Diz que o ronco, que acomete boa parte da população masculina, é uma questão social. E que atrás dele pode vir a apneia e suas consequências, que são as alterações cardiovasculares, deixando a pessoa hipertensa, com sonolência e obesidade.
 
“É comum ouvir queixas de pacientes que falam: puxa descansei a noite inteira, mas parece que não. É uma pessoa que está sempre cansada e sem vontade de praticar exercícios físicos. Tem alterações cognitivas e isso atrapalha, inclusive, a vida social. Além de ser problema médico com graves consequências, atrapalha o trabalho e aumenta riscos de acidentes”, assegura Botti.
 
Apneia do Sono – A síndrome da apneia obstrutiva do sono é uma doença comum, causada pelo colapso das vias aéreas superiores durante o sono, com hipóxia repetitiva, microdespertares, sonolência diurna excessiva, cansaço e aumento da morbidade e mortalidade cardiovascular. É subdiagnosticada e considerada um problema de saúde pública capaz de causar graves danos econômicos, familiares, nas relações sociais e à saúde, com aumento do risco de acidentes em casa e no trabalho, em especial, acidentes de trânsito. Estes fatos são relevantes no Brasil, onde a matriz rodoviária movimenta 61,1% de cargas e passageiros, especialmente em Mato Grosso, líder de produção de grãos no país.